quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Praça

"Você não se cansa, minha querida?"
"Por que estaria cansada?"
"De tanto fugir."
"Do quê eu fugiria? Ninguém me persegue."
"De você. Você mesma se persegue e se esconde dentro em uma atuação, uma mulher que não é."
"Talvez eu não esteja me escondendo, talvez esteja me procurando."
"Não, minha querida, você sabe exatamente quem você é, só não teve coragem suficiente ainda para tirar a máscara e descer do palco para a vida."
"Não sou covarde, senhora."
"Ter medo não é ser covarde. Todos temos medos."
"Você não sabe quem eu sou. Não me conhece. Vi-a agora, pela primeira vez na vida."
"Você tem razão. Não a conheço, mas vejo em teus olhos a sombra da menina que ainda vai se tornar luz, uma mulher incrível. Você sabia, minha querida, que os olhos são a janela da alma?"
"Já ouvi, algumas vezes, mas talvez isso não funcione mais nos dias de hoje, as pessoas aprenderam a mentir até mesmo com o olhar."
"Ou talvez você esteja tão desacreditada do mundo que não consegue enxergar a verdade por trás de um olhar, ainda é jovem demais para saber entender os olhares."
"Talvez eu seja, mas não creio que isso me importe. Não sei porque converso com a senhora, uma conversa de loucos."
"Eu entendo você, amada, não é fácil ter o coração partido. Não precisa segurar as lágrimas, vi que estava chorando, sentada neste banco de praça, antes de eu chegar."
"Eu não estava chorando."
"Será que ele merece mesmo as suas lágrimas?"
"Por que veio até mim?"
"Para lhe mostrar que o amor ainda existe."
"Obrigado."
"Não deixe as pessoas te moldarem, querida, apenas seja você mesma. Nós temos medo do escuro, da morte, do esquecimento, mas não podemos ter medo de viver. Os outros vão te amar e odiar, não importa que máscara você use, então, apenas deixe que amem-na por quem você realmente é."
"Não sei quem eu sou."
"Você é amor."
"Como posso ser o amor, se não sei o que é amar? Senhora?"

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